sábado, 28 de julho de 2018

Eu Volto

Teus braços 
Sempre teus braços 
Percorro, respiro, suspiro, contorço
E voltando pra teus braços 
Eu morro

Em êxtase.

D.Bruno

Ode ao Habitante Abstrato

Há um príncipe vivendo em minhas fantasias
Há um homem morando em meus pensamentos hipotéticos

Seus olhos mudam de cor como o girar de um caleidoscópio,
E a curva de seu peito é uma montanha que acalenta minha angústia.

Seus lábios percorrerem meu corpo quente, traçando padrões arfantes,
Minhas mãos sentem sua pele híspida e seu êxtase delirante;
Fecho meus olhos.


És somente um devaneio.



D. Bruno

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Tua Moira

Dizes que teço teu destino
Que minhas linhas controlam tua vida
Que te corto à fria navalha o cordão 

Disponho das gélidas mãos de Átropos 
Entrelaço fios predestinados
Sou tudo: Nona, Décima, Morta.

Dances conforme decido tua existência 
Ajoelhes perante tua sina em subserviência 
Moldando tua amarra ao tecido da essência 
Giro, então, tua roda da fortuna.



D. Bruno 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Memórias de Clareira



"Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbita
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança...mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! Tão perdida
que nem se possa saber mais de quem!"
                          Mario Quintana
  Sinto uma gota pesada cair sobre meu nariz. Limpo com as costas da mão, enquanto dou uma risada da cena. Chove torrencialmente; tudo está encharcado e enlameado, menos o banco de madeira embaixo de uma grande e antiga árvore. Os galhos, volumosos e em grande quantidade, não deixam as gotas da chuva tocarem o chão daquela área. É como uma clareira em meio a uma enorme floresta inundada.
  Ele abre um sorriso, se divertindo com a cena. Mesmo protegidos pela árvore, mantemos o guarda-chuva aberto, sem nenhum motivo aparente. Ele me puxa para perto de seu corpo, passando o braço pelo meu ombro. "Aqui não vai chover em você", ele diz, com sua voz sobrepondo o barulho da chuva batendo nas folhas.
  Eu poderia ouvi-lo falar o dia inteiro. O som de sua voz é algo difícil de descrever, mas a sensação que me causa é muito clara. Com uma simples frase, consegue fazer meu estômago gelar. Não de uma maneira ruim, como num susto, mas de uma maneira boa, como quando tomamos sorvete num dia quente de verão; é um gelado confortável e familiar.
  Quando dou por mim, já estamos nessa posição há aproximadamente trinta minutos, conversando sobre amenidades e bobagens. Cada segundo que passa, eu pondero as consequências que se seguiriam caso eu tomasse a iniciativa de beijá-lo, enquanto torcia para que ele o fizesse primeiro.
  "Eu poderia ficar nesse lugar pra sempre" - ele diz, respirando fundo - "Eu amo a natureza." Ele fecha os olhos, como quem absorve o momento. Eu me aproximo ainda mais de seu corpo, tocando meus pés nos dele. "Eu também", respondo.
  Ele abre os olhos e parece finalmente me notar ao seu lado. Com seus longos dedos, pega quase que em câmera lenta uma mecha de cabelo e a coloca atrás de minha orelha, liberando a visão do meu rosto corado. Sua mão pousa delicadamente em minha nuca, e nossos olhos se encontram. Sinto o pulsar acelerado do meu coração na ponta dos dedos das mãos, frias com o vento que a chuva traz.
  "Eu realmente poderia ficar aqui pra sempre", ele diz.
  Essas são as palavras que guardo em minha memória quando penso nele. Com elas, recordo daquele momento: daquela árvore, daquele banco, daquela chuva, daquela proximidade, daqueles dedos longos, daquelas batidas do coração. Recordo até o gosto de seu beijo.

Por fim, ele conseguiu ficar mesmo lá para sempre.
Em minha memória.



D. Bruno

Visita Policial

Luz no ocre
manchada
Sobras de uma cena 
macabra
Vermelha como teu medo.

Pegadas marcadas
no escuro
O corpo cinéreo
futuro
Notícia malvinda tão cedo.


                       Batidas na porta.

D. Bruno

sábado, 3 de janeiro de 2015

Entre, olho

Seu par de olhos vazios
Um cortante, um frio
O ébano não mente jamais

Suas mãos quentes e macias
O tato calculado, toque fingido
Armadilha de carinho fugaz

Caio por terra, revolvo lembranças
Cantigas, conversas, andanças
Componho outro soneto sagaz

Minha menina dos olhos,
Com sangue nos olhos,
Eu busco teus olhos,
Que já não me olham mais.

D. Bruno

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Hoje acordei com asas

O desejo de voar era um trovão
E gritava
Sentir a dor de estar presa
E cercada
Nessas grades de gaiola
Invisíveis para outrem

Peço-te que abras as janelas
Puxes as cortinas, cordas, manivelas
Deixes o bater de asas entoar em outros mares

Solto-me enfim de meu grilhão
E libertada
A alforria chega serena
E sonhada
Abrem-se então as asas
Para um infinito além

D. Bruno